
Porque esta serenata eu nao encontrei em lugar nenhum


Era uma vez uma moça que não sabia cantar
Disseram que tinha a voz muito feia
Depois disseram que ela era uma feiticeira
Acenderam uma fogueira
Se ela cantasse, ela seria de Deus
Ela não cantou
Morreu, carbonizada
Seus pais não a reclamaram, ela provara ser feiticeira
E eles não assumiriam uma filha feiticeira
São Pedro, ao recebê-la, perguntou:
Filha, por que não cantastes? Ao menos seus pais lhe reclamariam
Vergonha, Seu Santo, Vergonha.
O Jornal Nacional
Entre as palavras mais repetidas no Jornal Nacional estão: jornal, nacional, região, área, pesquisa e correspondente. Isso demonstra dois perfis do veiculo; autoreferência e estrutura dominante de poder.
Os dois perfis se justificam, pois se complementam. A autoreferência ocorre pela necessidade de se manter existindo, veiculando e sendo escolhido entre outros veículos, a luta capitalista pela sobrevivência, o existir e enriquecer ocorre com os mais fortes, mais atualizados, mais inteligentes e com a melhor estrutura publicitária.
A condizência com a estrutura dominante do poder corresponde ao editorial, já que uma delimitação é necessária, inclusive para que o leitor possa decidir qual jornalismo consumir (hoje o jornalismo precisa decidir para que time joga). Esta concordância com a estrutura de poder é também uma estratégia de manter-se como o veículo de maior aceitação e credibilidade. Tendo o jornal tanto poder e tanta repercussão, como poderia discordar de algum presidente ou governo e ele ainda continuar em vigor? A partir do momento em que se apresentasse esquerdista, o Jornal Nacional se mostraria mais fraco, tanto para o povo, quanto para o próprio governo, pois se demonstraria incapacidade de impor suas próprias regras e ideologias. Perderia o estatuto de quarto poder regular socialmente, partiria para a militância.
Assim, quando este veículo discorda de algum governo, é uma questão de sobrevivência que sua ação tenha o máximo de relevância e seja capaz de fazer valer sua vontade.
Os jornais expõe com certa regularidade “pedaços” de sua realidade interna, seja por um processo de auto-referenciação, seja nas campanhas de marketing veiculadas nos próprios veículos de comunicação. Isso sem contar o cinema, que sempre soube retratar, com ou sem retoques, a realidade dos órgãos de imprensa [DUARTE, Jorge (org.). Assessoria de Imprensa e relacionamento com a mídia. São Paulo: Atlas, 2003, p. 105].
O trabalho jornalístico está cada vez mais braçal e menos intelectual, pois a notícia exige imediatismo e para que haja a produção de “produtos” em série, sendo estes produtos a matéria propriamente dita, faz-se necessário que se siga apenas a um padrão, a um esquema. Podemos nos remeter ao fordismo que revolucionou os meios de produção com o conceito de “time is money”, suas fábricas produziam produtos, no caso, carros, tendo peças e mecânicas semelhantes, as máquinas e seus trabalhadores possuíam funções específicas e repetitivas que permitiam que funcionasse com maior excelência e velocidade, assim potencializaram o seu modo de produção.
Tendo a imprensa como espelho da sociedade, podemos ver que seu modo de produção condiz com a necessidade capitalista moderna de vender e ser mais atraente e mais rápida. Os jornalistas aprendem métodos e linhas de pensamento para construir uma noticia factual, concreta, acessível e bem embasada.
Por exemplo, no título é sempre obrigatório um verbo de ação na voz ativa, pois é a chamada que atrai o leitor de jornal. O lead, que se faz no primeiro parágrafo, deve por excelência responder às perguntas: quem, quando, como, onde e por que. Isto acontece por conta da praticidade, a maioria dos leitores de jornal não ultrapassa o primeiro parágrafo e quanto mais atraente e sensacional for este primeiro parágrafo, e este título, maiores serão suas chances de ter a matéria lida até o final e/ou publicada na capa.
O trabalho jornalístico cada vez mais se torna publicitário, com a enorme quantidade de informação. O jornalismo, por causa disso, enfrenta o paradoxo de precisar vender produtos e serviços, mas também ser ético, corresponder a determinada ideologia e não ferir o editorial.
Uma redação não é o único lugar onde se decide o destino de determinada noticia. Entre a ocorrência de um fato e sua divulgação pela imprensa existem inúmeros canais intermediários (sociedade, Estado, igrejas, empresas, sindicatos etc.), ou outros interesses externos subjetivos (ideológicos, éticos, técnicos etc.), que influenciam na decisão final de se dar ou não uma notícia [DUARTE, Jorge (org.). Assessoria de Imprensa e relacionamento com a mídia. São Paulo: Atlas, 2003, p. 106].
Também podemos argumentar o vocabulário pela linha ideológica de democratização da informação. Por mais que o papel de educar da mídia apareça e desapareça conforme as discussões, os governos, a sociedade e a necessidade de corresponder às expectativas de seus leitores e/ou espectadores, o primeiro objetivo do jornalismo sempre foi o de operar uma ponte entre os poderes e as massas.
Temos assim, historicamente, jornalistas intelectuais, que têm por interesse provocar rupturas e epifanias em seus leitores, e jornalistas mecânicos, cujo objetivo é chegar primeiro e produzir a notícia mais interessante, completa, nova e crível, sendo que ambos profissionais podem representar facetas diferentes de uma mesma pessoa. A tendência é produzir matérias condizentes com o editorial na esperança de ganhar créditos para escrever em que realmente se acredita, em ser tomado como autoridade e conseguir “mudar o mundo”, levar a informação à população, sem perceber que, ao transmitir sua ideologia em um veículo tão grande e tão imediatista, pode-se provocar imensas falhas sociais, tornando, assim, líquido o conceito de moral, ética, sucesso, instituição etc.
O grande poder do jornalismo, colocado na balança junto a sua função perante a sociedade, sempre foi uma dificuldade na formulação do que chamamos de ética jornalística. Por muito tempo pensou-se que a matéria perfeita seria aquela completamente imparcial e buscou-se modos de fazer com que o texto exibisse apenas os fatos, sem opinião. Foi quando teve início a tendência da impessoalidade, concretismo, o uso de autoridades sobre o assunto (advogados, médicos, professores universitários), a pesquisa de opinião e a obrigatória exibição dos dois lados da notícia. Porém ao longo do tempo, este conceito caiu por terra ao notar que a simples escolha de palavras (bandido, marginal, o homem, o indivíduo, o estudante) poderia denotar um favoritismo ideológico que se apresentava inevitavelmente no texto. Desta forma, a maneira que o jornalismo encontrou de prosseguir com seu papel democratizante, ser acessível, ser concreto, ser crível e ser factual foi reduzir seu vocabulário ao máximo (usa-se com freqüência lugares comuns, principalmente no lead e na seleção dos entrevistados) e utilizar verbos que permitem poucas possibilidades de dupla interpretação, sintoma claramente apresentado nas palavras contadas no JN.
O perfil condizente do JN com a estrutura dominante, os governos e o presidente, além de sua classificação como maior autoridade quando se trata do país que governa, corresponde a um editorial, o qual por sua vez corresponde a uma estrutura ideológica. O mesmo ocorre com os veículos de “esquerda” ou que ridicularizam a estrutura de poder, estes também possuem a intenção de informar ao maior número de pessoas possível os fatos que confirmem seu editorial, ou seja, os fatos que confirmem sua estrutura ideológica. Este perfil aparece desde a escolha de quais matérias são relevantes ou não para publicação, até o enquadramento dado pelo fotógrafo a determinada imagem.
Eagleton traz uma definição de estruturas de valores que apreende as especificidades do texto individual:
A estrutura de valores, em grande parte oculta que informa e enfatiza nossas afirmações factuais, é parte do que entendemos por “ideologia”. Por ideologia quero dizer, aproximadamente, a maneira pela qual aquilo que dizemos e no que acreditamos se relaciona com a estrutura de poder e com as relações de poder da sociedade em que vivemos. Segue-se, desta grosseira definição, que nem todos os juízos e categorias subjacentes podem ser proveitosamente considerados ideológicos. (EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: Uma Introdução. Basil Blackwell Publisher Limited Oxford, England, 1983. p. 16)
Podemos afirmar, em consonância com Eagleton, que a ideologia não é apenas a crença que tem raízes profundas, mas sim é o “modo de sentir, avaliar, perceber e acreditar” (p. 16), coisas que vieram da sociedade, da educação individual, da cultura e se relacionam de alguma forma com a manutenção e reprodução do poder social.
Enquanto meninos como essa coisinha fofa ai fazem o maior sucesso (kangief kid fez tudo que eu deveria ter feito), o bullying passou a ter nome, passou a ser crime, passou a ser diagnosticado... Ser um bully hoje e' tao feio quanto ser machista e/ou preconceituoso. VIVA E VIVA!
Os ogros são como cebolas
“Shrek: Pra sua informação, há mais do se imagina nos ogros.
Burro: Exemplo?
Shrek: Exemplo? Ok… Ah… Nós somos como cebolas.
Burro: Fedem?
Shrek: Sim. Não!
Burro: Oh. Fazem você chorar.
Shrek: Não.
Burro: Oh, deixa eles no sol e eles ficam marrons e soltam aqueles cabelinhos…
Shrek: Não! Camadas! As cebolas têm camadas, os ogros têm camadas. A cebola tem camadas, entendeu? Nós dois temos camadas.
Burro: Oh, vocês dois têm camadas. Oh. Sabe, nem todo mundo gosta de cebolas. Bolo! Todo mundo adora bolo! E tem camadas.
Shrek: Eu não ligo pro que todo mundo gosta! Ogros não são como bolos.
Burro: Sabe do que todo mundo gosta? Pavê! já conhecesseu alguém que você falasse ’ei, vamos comer pavê’ e ele dissesse ’céus, não gosto de pavê’? Pavê é delicioso!
Shrek: Não! Sua besta ambulante de irritação constante! os ogros são como cebola! Fim da história, bye bye, tchauzinho.”
Do filme Shrek 1
Japão, 2011.
Passaporte número 4356-0, visto permanente.
Data do check-in: 4 April, 2002.
Estado civil: solteiro.
Profissão: Atendente de escritório.
Data de nascimento: 05 de julho de 1983.
Mora: sozinha.
Dependentes: não.
Animais: dois gatos.
Nacionalidade: brasileira.
Único registro em vídeo sobre sua estadia no país é o de um restaurante. Fernanda, após ter pedido para o dono do restaurante para ler um poema para, em suas palavras, “aliviar seu coração”, e ter jurado que seria rápido, fez o seguinte discurso:
Hello everybody!
My name is Fernanda Pereira , and I am from
This is not my place, this is not my language, this is not my culture
But I fell sadness and it seems like poetry
In this foraging land nobody knows me
When my birthday was important to other people, it wasn`t as important to me
As it is now that I don`t have that people to sing it happy to me
That`s why I translated a beautiful Portuguese poet that I studied at the university, Fernando Pessoa, and I want to read my translation for you
In my heart it`s tenderness to bring life and words to sorrow
I hope that bring you the energy to come back to your houses thinking that someone
In this world
Fells as lonely as you, and realize that anyone have empathy with loneliness, because everybody have it.
Here I go:
In the time the party my years,
I was happy, nobody was dead.
At the old home, even my birthday was a century tradition,
And everyone`s happiness, and mine, was certain as any religion.
In the time they party my years,
I was healthy to don’t realize anything,
To be smart among family,
And don’t have hopes that other have for me.
When I had hopes,, I didn’t knew how to have them.
When I looked to life, I missed the meaning of it.
Yes, what I was the supposition of myself,
What I was the heart and familiarship,
What I was as half land in the mid-afternoon,
What I was as loving me and me being a girl,
What I was – oh, my God! What only today I know I was…
What distance!...
(can’t find it…)
When they party my years!
O que ela afirmou ser a tradução do poema de Alberto Caeiro (Pessoa), que leu em seguida em português:
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
Ela foi aplaudida e se retirou. Hoje a família a procura por todo o país, já fazia tempo que sumira, o tsunami devastou o local, o desespero de sua mãe, que não a tinha enterrado e não a entendia morta, apesar de desaparecida a quase um ano. Porém ela desembarcou no país na madrugada do mesmo dia, e fez a tradução da segunda parte do poema, sem linguagem, mas a roupa, e o olhar:
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...